«Tribos»: um espetáculo para TODOS

Com duas sessões com lotação esgotada (mais de 1500 espetadores), o Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz (CAE) recebeu, no passado sábado, dia 11 de outubro e domingo, dia 12 de outubro, a peça «Tribos», uma comédia perversa da autoria de Nina Raine protagonizada por António Fagundes, Bruno Fagundes, Arieta Correia, Eliete Cigaarini, Guilherme Magon e María Dvorek.
“A escolha do título da peça foi uma escolha muito feliz. Inicialmente percebemos que existem dois tipos de preconceitos. Mas ao longo do espetáculo percebemos que são milhares de preconceitos. Nina Raine usou a deficiência auditiva como uma metáfora para falar da intolerância, da surdez do mundo”, explicou o (re)conhecido ator brasileiro António Fagundes durante uma conversa, entre atores e público, realizada no final do espetáculo.
«Tribos» é uma história que se centra em Billy (Bruno Fagundes), que nasceu surdo no seio de uma família sem deficiências auditivas. Billy foi criado dentro de um casulo politicamente correto, adaptando-se ao comportamento pouco convencional da sua família. Mas quando Billy conhece Sylvia (Arieta Correia), uma jovem mulher prestes a ficar surda, contacta com uma nova realidade. Este é o ponto de viragem que o coloca, assim como ao público, perante a dúvida do que realmente significa pertencer a algum «lugar».
Desde a sua estreia no Brasil, que tem sido realizada uma sessão de acessibilidade para surdos e a Figueira da Foz não foi exceção. Assim, e na sessão realizada no domingo, através de duas intérpretes e da colaboração do Instituto Nacional para a Reabilitação (INR), o espetáculo contou com intérpretes de Língua Gestual e com audiodescrição.
“Este espetáculo, entre outras, serviu para garantir que daqui para a frente a nossa Companhia irá realizar sempre espetáculos com acessibilidade”, disse António Fagundes, acrescentando que “o maior preconceito que a pessoa com deficiência enfrenta é dentro da própria casa”.
Durante a conversa com o público, António Fagundes lembrou que atualmente no Brasil estima-se que existam cerca de 10 milhões de pessoas surdas. Em Portugal, e de acordo com a Associação Portuguesa de Surdos, esse número é de cerca de 30 mil.
Disponibilidade para…
Para Bruno Fagundes (Billy, na peça) o preconceito pode ser ultrapassado através do “amor”.
“Será a linguagem, a palavra mais importante que o sentimento?”, questiona o filho de António Fagundes. Para o jovem ator “a tolerância e o afeto passam por uma questão de disponibilidade”.
É com esta peça, vencedora do prémio New York Drama Critics, que pai e filho, respetivamente António e Bruno Fagundes, se encontram pela primeira vez nos palcos nacionais.
“Já é o terceiro trabalho que fazemos juntos, o que quer dizer que deu certo. Ele já deu certo como filho, e agora também dá certo como colega de trabalho!”, frisa António Fagundes.
“Temos uma longa jornada de trabalho em comum, com pelo menos mais dois anos de trabalho em conjunto”, desvenda.
O regresso a Portugal, e à Figueira da Foz, fica prometido para daqui a cerca de dois anos com um novo trabalho teatral.
Teatro para TODOS
Segundo Maria Helena Alves, do Instituto Nacional para a Reabilitação (INR), o CAE recebeu, na sessão de domingo, sete pessoas invisuais e cerca de 30 pessoas surdas.
“A audiodescrição só foi possível graças ao contributo da Media Ponto, empresa que cedeu gratuitamente todos os equipamentos”, referiu a representante do INR. A audiodescrição, realizada por Susana Juzarte, foi ainda efetuada nos espetáculos de Lisboa e Porto.
Maria Helena Alves lembrou que “e apesar de a lei assim o obrigar, estas sessões não são prática comum no nosso país”.
“Seria importante que houvesse, no mínimo, uma sessão acessível por espetáculo”, afirmou.


