«Depois de Marte» apresentado no Museu Municipal Santos Rocha
Impactante e impressionante é a forma que melhor descreve o que no final da tarde de 2 de maio se vivenciou no Museu Municipal Santos Rocha, com a apresentação do livro «Depois de Marte» de Maria João Carvalho, figueirense de coração e alma.
Na senda de um projeto do UMCOLETIVO que percorre lugares e obras de autoras femininas do séc. XX, de entre as obras incríveis produzidas por mulheres figueirenses, a de Maria João Carvalho assumiu um pendor distinto, face à natureza dos escritos. A figueirense, das primeiras mulheres a assumir-se como repórter de guerra, teve a capacidade de escrever textos em prosa, poemas e textos jornalísticos, pondo a “nu a força e a insuficiência da palavra”, conforme declarou Frederico Martinho.
Maria João Carvalho decidiu ir para a guerra “para ver a verdade, para tentar compreender a guerra, sem até hoje ser capaz de compreendê-la”, como o afirmou.
Na primeira pessoa, contou as reais histórias em cenário bélico, fez sentir o cheiro da morte, fez ver o vermelho do sangue, ouvir o estrondo das bombas e das minas tudo porque, como repetidamente afiançou, teve a capacidade de assumir, na frente da batalha, o seu humanismo e só depois o exercício da sua atividade: “nunca deixei de fazer um torniquete para poder captar uma imagem, nunca deixei de correr para junto de qualquer lugar onde brotasse água para encher o meu capacete e dar de beber a quem tinha sede”. Nos momentos, que foram muitos e imensos, encontrou no cheiro da maresia figueirense, o elixir para suportar o insuportável, exorcizando através da escrita todos os medos, temores e terrores que os seus olhos viram, a lente captou, mas que a mente nunca mais apagou, nem apagará.
Um livro onde “as imagens brotam do contacto da dor com a palavra”, um livro de coragem, transversal a todas as idades, mas de manifesta importância para os mais jovens a quem é indispensável mostrar o pendor sensorial e emocional inerente a qualquer guerra, pensando no contexto atual, sempre presente nas nossas vidas: Ucrânia e Palestina.
Em jeito de convite, o desafio para o espetáculo «A Paz é a Paz», que sobe ao palco do Auditório Madalela Biscaia Perdigão, dias 04 e 05 de maio, e cuja gênese reside nos textos de Maria João Carvalho e de Frederico Martinho . Um espetáculo que nos coloca “frente-a-frente, corpo-a-corpo, olhos-nos-olhos, entre o conflito e o poema, tateando a espessura da paz entre os escombros”.


