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Santana Lopes moderou conversa com três “conhecedores profundíssimos da personalidade do doutor Mário Soares
No âmbito das comemorações ao Centenário do Nascimento de Mário Soares, promovidas pela Câmara Municipal da Figueira da Foz, realizou-se na passada quinta-feira, 25 de janeiro, pelas 21h30, no Auditório Madalena Biscaia Perdigão, a primeira de uma série de conversas com personalidades das mais diversas áreas.
Moderada pelo presidente da Câmara Municipal, Pedro Santana Lopes, que agradeceu a presença dos três convidados, a jornalista Maria João Avillez, o jurista e deputado à Assembleia da República Sérgio Sousa Pinto e o escritor, curador, programador e gestor cultural José Manuel dos Santos, “conhecedores profundíssimos da personalidade do doutor Mário Soares”.
Testemunhas privilegiadas da vida e da obra de Mário Soares, os três convidados apresentaram, a uma plateia de cerca de 120 pessoas, histórias que marcaram a sua convivência com Soares, desmistificaram alguns aspetos do político, apresentando uma visão do seu lado humano.
A jornalista Maria João Avilez disse sentir falta do político e cidadão, “curioso, arguto, divertido, intuitivo, bom observador e bon vivant.”
“A curiosidade foi nele um dom e, simultaneamente, um dos segredos da sua energia. O outro, era a própria vida. Sabia rir, contar uma boa história, falar de pintura e pintores, livros e autores, arte e artistas, viagens e viajantes. Foi um formidável político e igualmente um formidável praticante da vida”, enfatizou a jornalista.
Já José Manuel dos Santos, que exerceu funções de assessor cultural de Mário Soares, referiu-se ao mesmo como um homem que gostava da vida e não a concebia sem liberdade. “Por isso não queria viver num país amordaçado, era um homem que queria uma democracia representativa, pluralista e ocidental”.
O coordenador da coleção “Obras de Mário Soares” - que partiu de um espólio com três milhões de documentos, referiu que o ex-Chefe de Governo e de Estado tinha como principal missão fazer com que a democracia passasse a ser uma coisa natural em Portugal, “e não passássemos a viver como se a democracia fosse um regime de extensão, um intervalo entre ditaduras”. “Esta é a maior vitória dele” frisou.
A grande lição e a grande mensagem deixada por Soares foi, na opinião de José Manuel Soares, deixar de “haver dúvidas existenciais sobre se nós éramos um povo que podia viver em democracia, se a democracia era o regime certo para nós”.
O deputado Sérgio Sousa Pinto salientou que Mário Soares era um exímio conversador. “Parecia um homem do século XVIII. Conversar, para ele, era uma arte. Gostava de falar de pessoas com graça, não aturava os chatos e era extraordinariamente sincero”.
O parlamentar referiu que Soares tinha uma conceção do socialismo muito particular, assim como de civilização. “Ele queria que nós, portugueses, pudéssemos viver como as pessoas viviam em França”, queria que tivéssemos “uma vida dedicada aos prazeres do espírito, uma vida cheia de alegria, de prazer”, livre do “atraso e da miséria”. Tudo isso conciliado com alguma atividade produtiva de forma a pagar esta existência. Este era o ideal do doutor Soares”, evidenciou Sousa Pinto.
No decorrer da conversa houve oportunidade para fazer a plateia rir e sorrir, em particular com a viagem que Mário Soares fez a Bona, na época capital da República Federal da Alemanha, acompanhado do seu então Ministro das Finanças, Vitor Constâncio, e na qual disse ao chanceler Helmut Schmidt que deixava Vítor Constâncio na reunião, pois como não percebia nada de economia, ia visitar os museus. “E o Soares realmente não percebia nada de economia, não gostava de números”, revelou Sousa Pinto.
Esta foi a segunda iniciativa de um vasto programa de atividades comemorativas do centenário do nascimento de Mário Soares, que teve início a 07 de dezembro de 2023 com a inauguração da exposição “100 Anos – 100 Fotografias - Democracia”, da autoria de Alfredo Cunha - fotógrafo oficial de Mário Soares durante os seus dois mandatos como Presidente da República (1986 a 199), a qual se encontra aberta ao público no Centro de Artes e Espetáculos até o dia 31 de dezembro de 2024, com entrada gratuita.
O programa comemorativo prevê inúmeras iniciativas e está previsto terminar a 3 de dezembro de 2024.


