.
Paulina Chiziane pediu limpeza e liberdade para uma língua portuguesa dinâmica, fresca e de todos
Paulina Chiziane, Prémio Camões 2021, foi recebida na noite de ontem, dia 08 de maio, no Auditório Madalena Biscaia Perdigão, por uma vasta plateia de admiradores, pela vice-presidente da Câmara Municipal, Anabela Tabaçó e por Manuel Meira, em representação da Editorial Caminho e do editor Zeferino Coelho.
Anabela Tabaçó referiu ser um “enorme orgulho e honra” receber a escritora moçambicana na Figueira da Foz, “pessoa extraordinária”, que veio para “contar histórias, partilhar connosco momentos da vida, experiências”.
Após a apresentação da vencedora do Prémio Camões 2021 por Manuel Meira, deu-se início a uma agradável conversa, na qual Paulina Chiziane abordou vários temas relacionados com a sua vivência enquanto mulher africana e escritora, assim como questões relacionadas com a guerra e com a língua portuguesa.
A autora, que diz que nunca gostou de rótulos, pois “funcionam como uma espécie de fronteiras”, considera que os seus escritos “tem uma matriz europeia e uma Banto».
Abordando a questão da guerra e a sua relação com a produção artística, a Prémio Camões 2021, considerou que a produção artística “é muito fértil em tempos de sofrimento”. Ela própria fez o seu grito, que salientou, “serve para nos consolar, mas para transformar, não sei muito bem”.
Paulina Chiziane foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance «Balada de amor ao vento», em 1990, que explora a poligamia, as tensões culturais, políticas e religiosas numa realidade machista que trava a iniciativa da mulher, expondo a contradição com a modernidade.
A este propósito a escritora disse que “há uma fogueira chamada feminismo”, a qual acreditou, por muito tempo que “era o lugar correto onde devia estar”, contudo atualmente considera que “antes de ir ao feminismo” devemos conhecer o nosso feminino.
Manuel Meira referiu que o Prémio Camões 2021 coloca a autora como “uma das maiores representantes da língua portuguesa” e questionou se a “a língua pode ser uma ferramenta de aproximação”. A autora considerou que “tem de ser”, mas para isso tem “de estar limpa”.
“A língua portuguesa tem, como outras tantas, expressões que nos conduzem ao racismo, ao sexismo, à supremacia”, arguiu a autora que frisou que “para termos uma língua dinâmica, fresca e agradável para todos” ela precisa ser limpa e “merece liberdade”.
Para a autora “qualquer língua é uma chave, um património que nos permite entrar no mundo dos outros” e que se queremos penetrar na realidade uns dos outros, temos de aprender as línguas dos outros”, enfatizou.
A propósito do Prémio Camões 2021, a escritora moçambicana, considerou que “pode ser o convite para juntos caminharmos no mundo de uns e dos outros e juntos formarmos um mundo novo.”
A sessão terminou com uma concorrida sessão de autógrafos.


