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João de Melo, 50 anos de vida literária e 'enorme dor' em tudo o que escreveu
No âmbito do ciclo “5.as da Leitura”, a Biblioteca Pública Municipal Pedro Fernandes Tomás acolheu, no passado dia 21 de maio, uma sessão especial com o escritor João de Melo, integrada nas comemorações do seu cinquentenário de vida literária. A iniciativa reuniu numerosos participantes numa noite marcada pela partilha de memórias, reflexões e episódios marcantes do percurso humano e literário do autor.
Durante o encontro, João de Melo evocou a infância nos Açores, as histórias contadas pela avó Deolinda, recordando ainda a passagem pelo seminário, a mudança para Lisboa e a experiência vivida em África, temas que influenciaram profundamente a sua obra, nomeadamente a reflexão sobre a guerra Colonial e as suas consequências, experiência profundamente marcante e decisiva na construção da sua consciência humana.
Foi nesse percurso de descoberta pessoal e literária que se tornou um leitor compulsivo, desenvolvendo uma profunda admiração pela literatura portuguesa e iniciando correspondência com o escritor Ferreira de Castro.
Durante a conversa, João de Melo destacou a influência de grandes autores da literatura universal, nomeadamente Gabriel García Márquez, cuja dimensão narrativa e universo literário sempre admirou profundamente. Sublinhou ainda o seu particular interesse pelo conto, género literário que considera dos mais exigentes e desafiantes, pela intensidade narrativa e rigor formal que exige ao escritor.
O autor destacou ainda o seu mais recente livro, Novas Fases da Lua, obra que assinala os seus 50 anos de vida literária e que reúne pensamentos, inquietações e reflexões sobre o mundo contemporâneo. O Diário, escrito entre 2017 e 2024, revela uma visão profundamente humana sobre temas como a guerra, as injustiças sociais, a fragilidade da condição humana, mas também a fraternidade, a arte e a literatura enquanto formas de resistência e esperança.
O autor salientou que o diário é um género literário de grande exigência e coragem, por expor não apenas o pensamento íntimo do escritor, mas também a sua visão social, cultural e política do mundo. Referindo-se ao conjunto da sua obra, afirmou que “há uma enorme dor em tudo o que escrevi”, acrescentando, contudo, a vontade de encontrar espaço para a felicidade e para uma maior reconciliação com a vida.
A sessão decorreu num ambiente de grande proximidade e participação, proporcionando ao público uma oportunidade única de contacto com o universo pessoal e literário de João de Melo. Entre confidências, memórias e reflexões sobre a escrita e a condição humana, o autor revisitou momentos determinantes da sua vida e da sua obra, reafirmando o papel da literatura enquanto espaço de memória, consciência e diálogo.
A proximidade entre o autor e os presentes prolongou-se numa demorada sessão de autógrafos e numa conversa muito informal, à qual ninguém ficou indiferente. Foi, sem dúvida, uma noite muito gratificante.
As próximas “5.as da Leitura” prosseguem com uma sessão excecional no dia 3 de junho, quarta-feira, com a presença de Carla Pais - Vencedora do Premio LeYA 2025 e da editora Maria do Rosário Pedreira, e no dia 18 de junho com o Professor Doutor Luís Portela, moderada pelo docente universitário e escritor, Nuno Camarneiro.


